domingo, 10 de maio de 2009

Lynn Austen.

O primeiro amor.
O primeiro beijo.
O primeiro namorado.
A primeira transa.

Em que mais Gibreel poderia ocupar o primeiro lugar na vida de Lynn Austen? Foi com ele que dividiu o primeiro cigarro, a primeira seringa, o primeiro porre, a primeira ressaca. Ele tomou para si sua inocência, deixando no lugar parcelas exageradas de libido das quais compartilhava de bom grado. Dividiu com ela a adrenalina de uma fuga planejada de casa aos treze anos, enquanto riam juntos nervosamente com o medo de que seus pais os alcançassem e mantivessem sua garotinha fora do alcance daquele garoto psicótico, perturbado e esquisito.
Ela o amava com toda a sua personalidade excêntrica e seu modo transviado de levar a vida. Ele era um espírito livre, indisciplinado, recalcitrante, não – conformista e politicamente incorreto que Lynn sempre quisera ser, se tivesse coragem o bastante. A encantava com sua verve inquebrantável, não importava o quão complicada sua vida se tornava, ele sempre a lembrava de suas simples alegrias. Não importava quando exigências lhe fossem feitas, ele nunca a deixava esquecer que a desobediência voluntária valia a pena. Num mundo de caciques ele era seu próprio senhor, o simples pensamento de perde-lo dilacerava sua alma, toda a sua fascinação provinha da sábia, singular e deliciosa loucura que dele emanava. Dividiu com ela a alegria de finalmente morarem juntos aos dezessete anos, logo após encerram os estudos.

Momentos bons. Aconteciam sucessivamente coisas boas demais até para que ela acreditasse: vivia num sonho delirante, via- se subitamente feliz, mais do que jamais estivera em toda a sua vida. Risos. Beijos. Abraços apertados e carícias íntimas denunciavam o amor. Ele costumava deitar-se com ela na cama estreita que dividiam, a aninhava em seu peito nu e com suas pernas enroscadas ele beijava seus cabelos com doçura numa prévia calorosa. A envolvia numa redoma encantadora de carinho e começava, com aquela voz rouca, macia e carregada a ditar-he o que havia escrito, contando-lhe de Haziel. Descobriu que o amor era mais do que sabia: muito mágico, brilhante. E era seu, finalmente. O amor pleno, belo, eterno e certo, aquele pra sempre.

O Fracasso.
A decepção.
A loucura.
O Fim.

Quatro anos mais tarde passaram a comentar que a aparência ligeiramente anêmica dela não combinava com sua alegria de espírito, alegria esta que Gibreel sugava com uma mesma agulha, limpa todos os dias, para injetar em doses exageradas em si mesmo. Lynn queria ser sua mulher, e não mais a namorada que apoiava absolutamente todas as suas loucuras. O controlava em suas explosões emocionais compartilhando com ele a dor de suas lagrimas que não faziam qualquer sentido. Ele fora demitido de seu ultimo emprego, o ultimo da lista de três nos últimos oito meses. Passava mais tempo trancafiado no quarto do que o normal, enquanto ela ainda escrevia colunas triviais para o jornal local comentando sobre a ultima moda em Paris e a gastronomia excepcional, que ela nunca provara, dos restaurantes mais sofisticados da cidade. "Você tem talento para escrever Lynn, gostaria de poder torna-la fixa um dia, se possível." – dizia Randall ao receber sua pauta todo sexto dia da semana. Estilo esse que mais uma vez Gibreel compartilhara com ela, passando-lhe um terço de seu extraordinário talento. E então ele se afundou. Se drogava com muito mais freqüência viciando-se naquilo que em pouco tempo ela passou a odiar. Ele não mudara, seria aquele garoto perturbado e estranho para o resto da vida, não tinha ambições, não buscava mais o conforto desejado nela, e sim na heroína. Num espaço limitado e assombrosamente rápido tornaram – se dois estranhos. Ela entendia que o amor ainda existia mais não havia mais a vontade da divisão, do compartilhamento. Ele não desejava dividir com ela suas angustias, seus medos, sua aflição, não queria que ela o visse cair. Ela entendeu, e o deixou.

"E eu sei os motivos, sim, sei; e que é melhor assim, também sei. O amor é mais forte que nunca. O desejo cresce e se amplia, povoa minha mente, meus sonhos. Sonho, sim. Espero. A esperança é doce, alimenta, nutre..."- Lynn? – a voz sonolenta e masculina soou repentinamente preguiçosa assustando-a.Hun? – ela voltou-se lentamente encarando o dono da voz que a espiava com os olhos apertados metido debaixo de um edredom floral, deitado a poucos metros de sua escrivaninha. Querida, venha se deitar, termine sua matéria amanha, Randall lhe deu mais tempo, não?Ela sorriu constrangida, ele decididamente não fazia idéia de que ela, mais uma noite em um ano despejava sobre as teclas do seu computador incontáveis desejos e memórias quanto a Gibreel.Desligou-o e jogou-se cama, sendo imediatamente enlaçada pela cintura.
- Sim, ele nunca me deu tanto tempo...

by Mai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário